
Writing

Aqui dou vazão a minha sensibilidade de outra maneira. Escrevo o que penso sobre a beleza que anda à solta,
a qual temos a maravilhosa e grata missão de capturar.
Capturar como?
Às vezes em luz, em cor, em luz
e aqui em palavra.
Texto de opinião
Difícil é ter uma ideia
“Qualquer um faria isso, mas ele fez primeiro.”
Existe uma vontade ocidental e herdada por nós desde o primeiro elogio: a vontade de ser pioneiro. Considera-se muito a vanguarda em detrimento dos mantenedores de uma tradição por exemplo, e é natural que seja assim, afinal, ter uma boa ideia é um dom. A criatividade é a habilidade profética de ver o óbvio, ja diria Nelson Rodrigues. Em tempos de outrora, gravava-se em uma sala: uma orquestra e um cantor juntos, isso tudo em uma fita. Um dia alguém criou um microfone melhor, com anos de mais desenvolvimento em recurso tecnológico e já se podia gravar em mais canais, mais detalhes, mais cores, um pouco mais próximo da vida real, saudamos então rei João Gilberto por profeticamente ver o óbvio e cochichar sua fantástica obra que o mundo inteiro adora. Um processo. Uma ideia não nasce do nada, mas ela nasce naturalmente, ela flui no coração de alguém que entende o processo que sem saber foi confiada a protagonizar. Protagonizar, colaborar ou consumir? Tudo que te conectar com a arte é digno e bom; esse texto é justamente sobre nossa valorização - se demasiada ou não, deixarei minha opinião paulatinamente no decorrer do ensaio - do primeiro papel, o de pioneiro.
Sou réu confesso de um bom conceito, prefiro uma interpretação bem concebida a uma execução apenas tecnicamente impecável. Claro, quando se pode ter o rigor técnico combinado a uma ótima ideia a vida é mais feliz. Acho que o senso comum compartilha essa opinião em muitos momentos, quando vê o valor da afinação elegantemente inexata do Milton Nascimento, dos vibratos anedoticamente geniais do Caetano, da sujeira do violão percussivo e sem igual do Baden Powell, temos mil exemplos na cultura popular onde a “perfeição” imposta pela suposta estética ideal - normalmente europeizada - é simplesmente menos interessante. Buscaremos então inovar?
A experimentação, quando nasce da vontade explícita de pioneirismos, é, via de regra, insossa e de curto prazo de validade. Ninguém nunca mudou o curso da história da humanidade, da arte, da música, de um estilo musical, de um instrumento com a intenção de fazê-lo; quando se trata de experimentação a relevância de uma boa ideia é inevitável. Não se resiste a uma boa ideia, é a boa ideia que tem poder magnético necessário para o homem-artista, esse vaidoso insuportável que adoramos. Que bom que seja assim. Finalmente, “as coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”.
Poesia
Texto de opinião
Mãozinha
Quando eu era menorzinho
Entrelaçava os dedinhos na mão grande do papai
E o tempo se apressava e brincava
De escorrer por entre nossas mãos
E aprendi com esse conto que o tempo brinca só
Que a gente brinca e o tempo não
Pois em minhas mãos ficaram as de meu pai
E seus abraços no meu coração
Hoje a sua mãozinha cabe dentro do meu beijo
E de vez em quando você quer meu polegar
“Tudo vai passar…”, “Tudo fica bem...”;
Minha mão virou brinquedo na mãozinha da neném
Você pode até pensar que é grande a mãozinha do papai
Que sempre te assegurou
Mas eu dava a minha vida e muito mais
Para ver sua mãozinha na mãozona do vovô.
Escrever um pouco nunca é demais
"Quem foi que pôs o lamento na voz da lavadeira?"
(Paulo César Pinheiro)
A verdade é que a inspiração é força arrebatadora, inevitável e impossível de esconder; quando vem, vem. Por isso parei pra escrever um pouco e sei que não é nada demais, mas é muito bom poder fazê-lo, é muito bom querer fazê-lo. Aproveitando esse ensejo de inspiração para falar da própria inspiração, de como funciona para mim a criatividade, como eu lido com a inspiração que bate a porta todos os dias, de diferentes maneiras.
Um dia escutei de um querido amigo - e colega de profissão a quem a inspiração parece nunca faltar - que a composição para ele não é apenas o momento da ideia, mas junto disso todo o período que vêm após a ideia, o fato de moldar, aperfeiçoar, mexer, virar de cabeça pra baixo, apagar, refazer e quem escreve, pinta, dança, trabalha com criação em geral vai entender muito bem o que ele quer dizer com isso.
A ideia primeira merece respeito e respeitá-la, muitas vezes, é não permitir a arrogância de presumir que ela nasceu pronta, mesmo que seja muito boa em si. Mesmo uma criação terminada pode sofrer transformações constantes e simplesmente melhorar e melhorar e melhorar sem limites - a verdade é que uma música você não termina, de certo modo, você apenas desiste de tentar melhorar. Arrebatador, inevitável, impossível de esconder: assim é a vontade de criar. Para mim essa vontade fases bem marcadas e é um processo bem claro e esperançoso quando inicia, vou contar um pouco melhor.
Basicamente, passam-se meses sem chegar-me ideias que considero boas o suficiente para tornar-se uma obra musical, assim como as vezes simplesmente vou escrever um texto poético e a pena está seca. Isso parece ser verdade para outros artistas também, visto que Adélia Prado diz:
"De vez em quando Deus me tira a poesia.
Olho pedra, vejo pedra mesmo."
Quando a inspiração bate a porta eu tenho a felicidade de um sertanejo que espera a chuva, as vezes passam-se meses, muitos deles, e essa espera me faz valorizar ainda mais a criação a partir do nada e sobretudo me incita a estudar, preparar e me inspirar, buscar outras fontes de inspiração para poder ser ainda mais capaz de produzir algo muito lindo quando essa inspiração resolver me procurar. Curiosamente, logo depois de gravar um disco passo por esses momentos de estio. Não sei porque, mas é como se meu coração pedisse algum descanso, lidar com a beleza é muito cansativo para um coração, nós artistas estamos todo o tempo buscando provocar de maneira mais intensa possível as melhores emoções em um público, são gatilhos e mais gatilhos que aprendemos a incitar para que um público se permita chorar e vibrar com nosso trabalho. Isso demanda energia emocional e estamina corporal, cerebral, massa cinzenta mesmo.
De repente vejo uma nuvem pequena, cai uma gota na palma de minha mão e nesse momento o mundo se colore e tudo é bonito, não existem mazelas que não sejam proveitosas para a alma, mesmo que sejam para se horrorizar. O poeta é assim: do horror encontra a emoção, traduz para que você também possa senti-la. O artista é o vetor de sensibilidade que traduz o mundo para que o homem simples o compreenda e o cure; assim cada um desempenha seu papel. Não à toa um mundo sem arte é um mundo doente. Um riso da minha filha, uma queda de bicicleta, uma curta viagem e às vezes uma pequena mensagem de gentileza, tudo pode desencadear e motivar um processo criativo, tudo pode tocar um artista, o que não significa que sem isso ele não produziria, o artista não sabe não produzir, porque a criatividade é força implacável, não se controla isso, não se enxuga oceano.